Liberdade de expressão – como tudo – enquanto potencial foi valorizada, estimada e publicitada com propósito; enquanto dado adquirido da era moderna todo esse potencial não se transformou em energia cinética que trabalha para o progresso da qualidade das relações sociais, mas sim em desperdício de energia que deteriora essas mesmas relações.

Nos dias de hoje o lema é aceitar e respeitar tudo. Tudo com excepção daquilo que não se pode provar pela ciência dos homens, que é sempre perfeita. Só o que é dito por pessoas devidamente credenciadas é que é válido, porque é impossível falharem, mentirem ou procurarem servir os seus próprios interesses controlando o pensamento das massas. A experiência e o pensamento independente na realidade são obstáculos ao verdadeiro saber de uma demagogia libertina que parece servir os interesses de todos os envolvidos. O crescimento espiritual e pessoal em prol do altruísmo são retrógrados e categorizados como parte do imaginário do eu e ainda que não sejam ridicularizados, retiram crédito a quem os busca assumidamente. A verdade semelhantemente é cada vez mais subjectiva e nada mais que um meio para alcançar um fim. Afinal,  a realidade nada mais é que percepção, assim como o certo e o errado, não é? São essas visões que nos libertam de qualquer peso – inclusive o da responsabilidade – e dessa forma podemos concentrar-nos no eu que é algo que raramente se faz nesta era. Aliás só assim é que realmente se pode ensinar o mundo a ser da forma como o eu quer. Ensina-se respeito, desrespeitando; clama-se por paz com gritos de guerra; fala-se do egoísmo de outros por não pensarem em mim; valoriza-se o pensamento individual e evoluído demonstrado através de clichés generalizados e novos estereótipos – que visto serem novos não são categorizados como tal; há uma preocupação e uma ânsia por desenvolvimento, mas a compaixão, a partilha, a comunicação eficaz são consideradas acessórias, irrelevantes e secundárias; o verdadeiramente essencial é o o desenvolvimento do intelecto e da qualidade de vida – facilitismo patrocinado pelas tecnologias -, independentemente dos custos que a sustentabilidade e o planeta têm que pagar; na luta pela sobrevivência, autodestruímo-nos canibalmente. Que espécie peculiar, a raça humana…

Nos animais a comunicação é essencialmente física através da linguagem corporal, nos humanos existe a possibilidade de comunicar verbalmente sem ser necessário “eriçar o pêlo” para que seja percetível o desagrado. Contudo, talvez o gosto pelo primitivo seja uma moda particularmente apreciada na era moderna. De facto é particularmente penoso distinguir se o humano prefere eriçar o pêlo literalmente ou figuradamente. Talvez o livre arbítrio para escolher ambas ou entre ambas seja a capacidade favorita. Com tantos avanços em tantas áreas será que seria possível descobrirmos uma forma de assertividade ao invés de recorrermos à agressividade, à discriminação e ao criticismo ofensivo?

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