Li este livro recentemente e devo dizer que apesar do enredo e os personagens serem completamente assombrosos, há algo de verdadeiramente intrigante e cativante nesta leitura que pede uma repetição. Um dos aspectos mais peculiares que caracteriza “O Monte dos Vendavais” é a capacidade que tem de despertar nos leitores uma certa ‘bipolaridade’, fazendo o leitor sentir repulsa e empatia simultaneamente pela maioria – se não mesmo a totalidade – dos personagens.

A obra centra-se em dois personagens: Catherine Earnshaw e Heathcliff. À medida que a história se vai desenvolvendo vão surgindo outros personagens tais como Edgar Linton, Isabella Linton, Hareton Earnshaw, Catherine Heathcliff, Linton Heathcliff, entre outras. A narradora dos eventos passados é Ellen Dean – também apelidada de Nelly – que relata com uma parcialidade demasiado marcada o que a torna numa narradora digna de desconfiança, assim como o próprio Lockwood – inquilino de Heathcliff e narrador maioritariamente dos eventos presentes – que reconta o passado apenas pelas palavras de Nelly e tem uma relação distante ou mesmo inexistente com a maioria dos personagens. Assim sendo, o sentimento de dúvida é algo que assola o leitor constantemente acerca da veracidade e exactidão dos factos que lhe são apresentados.

A personagem mais enigmática é sem dúvida Heathcliff que é o antagonismo personificado, levanta várias vezes a questão dicotómica do inato contra o adquirido. Muitas vezes em determinadas situações é ambíguo se o personagem de Heathcliff tem requintes de malvadez que já faziam parte do seu ADN ou se o ambiente e as atrocidades de que foi vítima tiveram peso naquilo em que se tornou.

Encontra-se também presente na obra a questão do amor e da paixão, qual tem mais força e qual é mais genuíno e se de facto por trás desses sentimentos não existe sempre um motivo egoísta que os motiva, até no próprio altruísmo é possível ver motivos egoístas. A questão que surge desta temática é se de facto tudo o que fazemos é ou não egoísmo psicológico. O triângulo amoroso entre Catherine Earnshaw, Heathcliff e Edgar Linton é o exemplo mais evidente desta temática.

Por outro lado há também uma outra questão sobre a vulnerabilidade física perante uma psique debilitada ou determinada no sentido da debilidade, exemplificada através das fragilidades da saúde física de Catherine Earnshaw ao longo de todo o romance.

Não irei aprofundar a questão das relações de poder que estão em constante movimento e que são de difícil leitura e compreensão, mas foi algo que também me fascinou assim como uma falta de reciprocidade nas relações que constituem este romance.

Estas foram algumas das questão que captaram o meu interesse e que por serem tão profundas e exigirem alguma reflexão atribuem ao livro um significado muito amplo. Tudo isto confere ao livro a qualidade de poder ser lido sempre sob uma nova perspectiva, dessa forma uma segunda leitura não é apenas necessária, mas desejada.

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