Sou um botão de rosa assimétrico, com os espinhos bem definidos e muitas pétalas por revelar, mas como venho de uma roseira, sei que numa rosa me vou tornar.

    O espelho disse que poderia, facilmente, passar despercebida, se não procurasse o centro do palco. Maldito Espelho! Não se calou um segundo, mas nunca disse nada. A discrição que fazia de si próprio era tão súbtil, que ninguém notava que este a possuía. O labirinto lógico que partilhámos ininteligivelmente, era avassalador, rápido e invulgar, não contendo qualquer padrão racional. A cascata de emoções que se encontrava presa dentro de um rectângulo à minha frente, era maravilhosa e intensa, mas ilegível; mas alguém tenta compreender uma corrente de água? Onde começa a primeira gota e onde acaba a última? Talvez haja alguém que se dedique a essa actividade, mas será que a torna parte crucial da sua existência? Se não o faz, porque mereceria compreender a cascata e como chegaria ao final do labirinto?

    Foi então que a pessoa, à minha frente, me estendeu a mão e me levou numa viagem musical. Subitamente, um sussurro ecoou nos meus ouvidos as seguintes palavras: “A melodia que ouves dentro de ti, pode ser apenas barulho para o exterior, mas não a desafines interiormente para ela soar melhor à natureza, pois esta mesmo que quisesse não percebe de música e devido a isso não lhe dá valor, mas a complexidade da melodia é de qualquer maneira inconfundível e única, é esse o objectivo final.” Foi então que fechei a porta do armário, que continha o meu espelho e me encolhi dentro do mesmo, agarrada à minha almofada, enquanto olhava fixamente, aquele misterioso espelho.

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